sexta-feira, 9 de março de 2012

Shame on us

O chocante apelo visual de Shame, filme de Steve McQueen, foi refletido das telas para os seus cartazes de divulgação. Alguns, inclusive, foram banidos. Confira abaixo:


o cartaz nacional:



cartazes around the world:








cartazes húngaros banidos:




Protagozinado por Michael Fassbender e Carey Mulligan, Shame (finalmente) estréia na próxima sexta-feira nos cinemas brasileiros.



Pier Paolo Pasolini

O poeta, romancista, filólogo e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini completaria 90 anos na última segunda-feira. Brutalmente assassinado em 1975, os motivos de sua morte geram polêmica até hoje, sendo associados a um crime político ou a um mero latrocínio. Aliás, polêmica também é uma bom termo para definir a carreira de Pasolini, um verdadeiro provocador em sua natureza. Quebrou preconceitos, fez inimigos e gerou o choque entre opostos. Anti-fascista convicto, era filho de um soldado famoso por salvar a vida de Benito Mussolini. Apesar de ateu, Pasolini sempre promoveu em seus trabalhos o conceito de que o mundo em si possui uma sacralidade natural, um estágio que poderia ser atingido sem a necessidade de um guia espiritual. Esses conflitos de sua personalidade refletiriam como uma característica diferencial em suas obras. Pasolini ganhou prêmios nos festivais de Berlim, Cannes e Veneza, entre outros, e seu legado tem um caráter de permanente transgressão.



Aos 32 anos, Pier Paolo Pasolini começou sua carreira de cineasta, colaborando com Mario Soldati, Federico Fellini, e, principalmente Mauro Bolognini. Na primeira parte de sua obra, Pasolini mostrou um interesse particular pelo subproletariado da periferia das grandes cidades industriais, embora a visão que nos dá dos meios populares esteja singularmente transformada por um lirismo quase místico, para não dizer religioso. Seu primeiro filme, Accatone (1961), baseado em um romance escrito por ele mesmo, chamou a atenção. Mas seu primeiro escândalo viria com a produção seguinte, Mamma Roma (1962). O filme conta a história de uma prostituta que sonha em melhorar de vida para poder voltar a morar com o filho. Estrelado por Anna Magnani (de Roma, Cidade Aberta), Mamma Roma foi considerado uma afronta à moralidade, o que gerou protestos fascistas em sua estréia. Polêmicas à parte, o longa é valorizado pelos planos e angulações inspirados em obras de Giotto e Caravaggio, dentre outros artistas plásticos. Essa inspiração visivelmente se funde à obsessão de Pasolini pelo cristianismo na cena do casamento da prostituta, onde é recriado o quadro da santa ceia de Leonardo da Vinci.


Anna Magnani entre Ettore Garofolo e Pier Paolo Pasolini

A inspiração religiosa se manifesta de uma maneira ainda mais evidente em Il Vangelo Secondo Matteo (O Envagelho Segundo Mateus), de 1964, filme que tinha o objetivo de mostrar Cristo como um mito lírico-épico-popular visto através dos olhos do povo crente. Seguindo seu hábito e dando sequência às suas experiências neo-realistas, o cineasta recorreu a atores não profissionais e cenários naturais que marcam uma ruptura flagrante com a iconografia tradicional, dominada por imagens devotas e adocicadas da tradição religiosa. Os diálogos foram tirados diretamente da bíblia, pois, segundo Pasolini, a beleza poética do texto jamais poderia ser recriada, nem mesmo através de imagens. O diretor disse ainda, na época, que escolheu Mateus ao invés dos outros apóstolos porque “João era místico demais, Marcos era vulgar e Lucas era extremamente sentimental”. Quando questionado sobre o contraste de uma obra religiosa com a sua reputação de ateu, Pier Paolo Pasolini respondeu: “eu posso ser um incrédulo, mas sou um incrédulo que tem saudades de ter uma crença”.

cena de Il Vangelo Secondo Matteo

Mas o cinema de Pasolini também foi marcado por uma constante ligação com o arcaísmo prevalecente no homem moderno. Prova disso é a obra Teorema (1968), em que um indivíduo, vivido pelo astro inglês Terence Stamp, entra na vida de uma família e a desestrutura por inteiro. Metaforicamente, cada membro da familia representa uma instituição da sociedade. Foi a primeira vez que Pier Paolo Pasolini trabalhou com atores profissionais a cargo de protagonistas. Teorema analisa a sexualidade (e a homossexualidade) através de um duro realismo, tanto ao nível da linguagem como da imagem, o que gerou mais controvérsias por todo o mundo. O filme foi posteriormente adaptado para um romance pelo próprio Pasolini.

Pier Paolo Pasolini e Terence Stamp nos bastidores de Teorema

Em 1969, Medea, baseado na obra de Euripides, trouxe a cantora de ópera Maria Callas no papel principal. Embora não cante no filme, Callas tem suas feições impressionantes  registradas em diversos closes. Ela queria Richard Burton para interpretar Jasão, o amado de Medéia, mas ele recusou. O papel, então, foi dado ao italiano Giuseppe Gentile.

Maria Callas e Pasolini durante as filmagens de Medea

Em 1971, Pier Paolo Pasolini iniciaria sua Trilogia da Vida com Il Decameron (Decamerão), baseado no romance Decamerone, de Giovanni Boccaccio. Os outros filmes foram I Raconti di Canterbury (Os Contos de Canterbury, 1972) e Il Fiore Delle Mille e Una Notte (As Mil e Uma Noites, 1974). Sobre Il Decameron, o cineasta declarou: “Se olharem criticamente para o Evangelho e Il Decameron, verão que os dois filmes se assemelham muito; o estilo e a idéia dos filmes são o mesmo. Apenas o sexo ocupa o lugar de Cristo, é tudo, mas não é uma grande diferença”. Os três filmes são marcados pelo humor e pela ousadia, mas curiosamente seu erotismo é natural, despudorado e até primitivo. A trilogia foi rodada em locações autênticas; paisagens exóticas como Etiópia, Índia, Irã, Nepal e Iêmen. Além disso, Pasolini continuou trabalhando com atores amadores, muitas vezes até inexperientes, mas também deu lugar a artistas consagrados como Silvana Mangano, Geraldine Chaplin e Hugh Griffith. Aliás, em Il Decameron, o próprio diretor faz o papel do pintor Chaucer. A Trilogia da Vida permitiu a Pasolini formular de uma maneira mais precisa sua concepção cinematográfica e aprofundar seu interesse por uma cultura autenticamente popular. Para este fim, utiliza situações às vezes escabrosas, mas que se afastam muito das que explorava o cinema comercial da época. Sobressai assim uma poesia extremamente forte onde o acervo naturalista se alia a um lirismo muito sutil, o que marca a filmografia de Pasolini. Em um determinado momento da sua vida, o diretor renegou esses filmes, afirmando que eles foram apropriados erroneamente pela indústria cultural, que os classificava como pornográficos. A trilogia foi proibida nos Estados Unidos até meados da década de 1980 e no Brasil só foram exibidos após a abertura política.

Pasolini caracterizado como o personagem Chaucer, em Il Decameron

Sua última obra, Salò o le 120 giornate di Sodoma (Saló ou Os 120 Dias de Sodoma), foi classificada como o filme mais controverso de todos os tempos. Graças às suas cenas de intensa violência, sadismo e depravação sexual, o filme continua proibido em diversos países até hoje. Apesar disso é considerado uma obra-prima por cineastas como Martin Scorsese, Michael Haneke e Catherine Breillat. Em Saló..., o cineasta transpõe o romance Os 120 Dias de Sodoma, de Marquês de Sade, para os últimos dias da ditadura fascista italiana. Os ciclos da vida e do sexo associados à alegria, são expressamente rejeitados por Pasolini, que assim compõe um filme em ruptura com ele próprio. Saló... foi planejado para ser a primeira parte da Trilogia da Morte, ou seja, a antítese dos três filmes realizados anteriormente pelo diretor. Quando questionado sobre quem seria o público-alvo do longa, ele respondeu: “É um filme para todos. Para pessoas como eu”. Pier Paolo Pasolini foi assassinado em 1975, pouco antes do lançamento do longa.

Pasolini no set de Salò o le 120 giornate di Sodoma

Esbanjando cinismo e sarcasmo em suas produções, Pier Paolo Pasolini colocou sua obra à prova do tempo. Nem o passar dos anos é capaz de diluir o impacto visual e moral de seus filmes em diversas gerações de espectadores.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Top 3 - Filmes de Fevereiro

Mudança de planos: embora eu tenha explicado no post referente ao top de Janeiro que iria selecionar os cinco melhores filmes do mês anterior, encontrei uma certa dificuldade na hora de avaliar as produções lançadas em Fevereiro. Não só pelo tradicional delay entre os filmes que vazam por torrent, os que são lançados lá fora e a data que as distribuidoras resolvem ter um pouco de boa vontade no coração e colocá-los em cartaz por aqui. Se tratando de filmes, Fevereiro foi mais um mês de decepção do que de alegria. Achar mais do que três longas ótimos foi uma tarefa bastante difícil, então, a partir deste mês, ao invés de cinco, selecionarei apenas três. Só o crème de la crème.


E, claro, os filmes eleitos pelo dono da ideia do Top 5, Marcelo Janot, você vê aqui.



#1  Hugo/ A Invenção de Hugo Cabret
direção: Martin Scorsese
elenco: Asa Butterfield, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Chloe Grace Moretz
lançamento em cinema

 Para quem ama cinema, Hugo, acima de tudo, é um emocionante e primoroso prato cheio de referências. Para os demais públicos, não deixa de ser um espetáculo de encher os olhos, onde Scorsese extrai o melhor possível da tecnologia 3D através de uma produção refinadíssima. Vencedor de 5 Oscars.



#2  The Artist/ O Artista
direção: Michel Hazanavicius 
elenco: Jean Dujardin, Berenice Bejo, John Goodman, Penelope Ann Miller
lançamento em cinema

A primeira produção francesa vencedora de um Oscar de Melhor Filme é uma cativante homenagem à Hollywood dos anos 1920, repleta de sequencias memoráveis e emocionantes. The Artist ganhou outras 4 estatuetas, incluindo Melhor Diretor e Melhor Ator para Jean Dujardin, num desempenho que bisa a excelência do mestre Buster Keaton.



#3  Beginners/ Toda Forma de Amor
direção: Mike Mills 
elenco: Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Visnjic.
lançamento direto em home-video

Uma deliciosa comédia romântica com personagens envolventes e uma performance fora-de-série de Christopher Plummer, agraciado com o Oscar de Ator Coadjuvante. Enquanto outros filmes com estética moderninha semelhante patinam na pretensão, Beginners opta pelo dinamismo de uma forma bastante natural.

terça-feira, 6 de março de 2012

A melhor atriz de 2011: Jessica Chastain

Jessica Chastain não chegou a ser tão ignorada pelo Oscar quanto Ryan Gosling, mas ainda assim uma indicação na categoria de Atriz Coadjuvante é pouco reconhecimento para quem emplacou uma série de desempenhos elogiados em 2011. Não se encaixar nos padrões de beleza Hollywoodianos apenas faz parte do charme de Jessica: sua pele translúcida combinada com o seu cabelo vermelho flamejante a tornam excepcionalmente bonita. Independente disso, ela se tornou um nomes mais requisitados atualmente por diretores conceituados. 



A Academia de fato não pôde deixar passar em branco a performance de Jessica Chastain como Celia Foote em The Help (Histórias Cruzadas). Em meio a um elenco estelar de atrizes como Viola Davis, Emma Stone, Bryce Dallas Howard e Sissy Spacek, Jessica se destacou no papel de uma jovem emergente na sociedade do Mississippi que é ignorada pelas socialites devido a sua origem de família operária. Ela perdeu o Oscar justamente para a sua colega de cena Octavia Spencer, que interpreta a empregada e confidente de Celia.



Em Take Shelter (O Abrigo), Jessica cedeu a profundidade necessária ao desespero de Samantha, uma mãe que se vê cercada entre a dificuldade de comunicação de sua filha surda-muda e a repentina esquizofrenia do marido, vivido por Michael Shannon. Para aperfeiçoar seus desempenhos, tanto Shannon quanto Jessica tinham aulas de linguagens de sinais no set de gravação. Por este papel, Jessica Chastain ganhou 14 prêmios.



Terrence Malick estava em busca de uma atriz para co-protagonizar The Tree of Life (A Arvore da Vida) ao lado de Heath Ledger. Foi quando, pessoalmente, Al Pacino indicou o nome de Jessica Chastain para o diretor, que lhe deu o papel logo após a audição. Com o falecimento de Ledger, Brad Pitt, que estava produzindo o longa, assumiu também o personagem principal da história. A troca de atores foi feita tão depressa que o primeiro contato entre Brad e Jessica foi no set de filmagens. Durante a produção, Jessica disse que Terrence a treinava normalmente, com as falas do script. Em seguida, pedia para ela fazer exatamente a mesma coisa - mas sem dizer as falas. Foram justamente essas as cenas filmadas. A pós-produção de The Tree of Life demorou 3 anos, até o filme ser finalmente lançado no Festival de Cannes de 2011.



Além dos três filmes citados, ainda em 2011, Jessica esteve no projeto Coriolanus, dirigido, escrito e protagonizado por Ralph Fiennes. Baseado no romance de William Shakespeare, aqui ela vive Virgilia, esposa do personagem-título, e contracena também com Vanessa Redgrave e Gerard Butler. Apesar de uma larga experiência com peças de Shakespare ainda quando estudava dramaturgia, Jessica encarou Coriolanus como uma masterclass.



Jessica divide o papel da agente Rachel com Helen Mirren em The Debt (No Limite da Mentira), que a interpreta após uma passagem de 30 anos na história. Junto com outros dois agentes interpretados por Sam Worthington e Marton Csokas, Rachel tem a missão secreta de capturar um criminoso nazista. Como preparação para as sequencias de luta, Jessica Chastain teve aulas de Krav Magá por 3 meses. The Debt é um remake do filme israelense Ha-Hov or HaChov, de 2007.  



O astro de Avatar, Sam Worthington, e Jessica Chastain se encontrariam novamente em Texas Killing Fields (Em Busca de Um Assassino). O filme é dirigido pela filha de Michael Mann (diretor de O Informante e Colateral), Ami Canaan Mann, e saiu diretamente em DVD no Brasil ano passado.



Al Pacino e Jessica Chastain se conheceram na peça Salomé, de Oscar Wilde, a qual estrelaram juntos. O espetáculo foi convertido em documentário por Pacino e se chamou Wilde Salomé (também lançado em 2011), onde o próprio espetáculo se mescla aos bastidores. Segue os mesmos moldes de Looking for Richard (1996), onde o ator documentou o processo de produção da peça Ricardo III. Wilde Salomé foi o primeiro filme de Jessica, após anos de experiência em séries de TV como E.R., Veronica Mars e Law & Order.



Em 2012, Jessica tem cinco longas em fase de pós-produção: um drama sobre o poeta C.K. Williams, com James Franco e Mila Kunis; o filme de terror Mama, de Andres Muschietti; The Wettest County, de John Hillcoat, com um elenco de peso formado por Shia LeBeouf, Tom Hardy, Guy Pearce, Gary Oldman e Mia Wasikowska; o novo projeto de Terrence Malick, ainda sem título; além de dublar Gia na animação Madagascar 3: Os Procurados. Jessica Chastain também está cotada para o já polêmico novo longa de Kathryn Bigelow (a única diretora vencedora de um Oscar até hoje) que será a respeito de Osama bin Laden.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Weekend Movies: Jovens Adultos e A Mulher de Preto


Young Adults/ Jovens Adultos
direção: Jason Reitman
elenco: Charlize Theron, Paton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser
IMDb


Embora já tenha faturado uma estatueta em 2004, Charlize Theron foi uma das ausências mais sentidas pelos críticos no Oscar deste ano. E com razão. Charlize leva nas costas a comédia Young Adults com uma competência impressionante. Com um ar de Cameron Diaz bad-ass, ela vive a protagonista Mavis Gary, que apesar de ser uma linda-e-loira ghost-writer de uma série de livros, leva uma vidinha medíocre em Minneapolis. Mavis acabou de se divorciar e sua série está a beira do fim. A notícia de que Buddy (Patrick Wilson), o seu namoradinho de escola casou-se e acaba de ter uma filha interrompe a sua rotina regrada à muito álcool, junk food e one-night stands. Em busca de algum sentido na vida, ela decide voltar para a cidadezinha onde cresceu e reconquistar seu ex-namorado. O que aparentemente é apenas uma carência de nostalgia, uma necessidade de reaviver os bons momentos da adolescência, inesperadamente ganha contornos mais dramáticos ao longo do roteiro, escrito por Diablo Cody. Diablo é uma ex-stripper, autora do sucesso Juno, onde também trabalhou com o diretor Jason Reitman. Além de personagens sólidos e bem construídos numa narrativa bem simples, a roteirista dispara diversas críticas ao politicamente correto a bordo de diálogos afiadíssimos e sem a menor sombra de escatologia. O trabalho irretocável de Charlize Theron encontra um paralelo perfeito nas cenas com Patton Oswalt (O Desinformante), que faz o ex-colega nerd e deficiente de Mavis. Com uma trilha recheada de clássicos 90's (4 Non Blondes, Teenage Fanclub, The Lemonheads, entre outros), Young Adults traça um retrato divertido, e até mesmo tempo profundo, sobre as incertezas e as inescapáveis frustrações que as decisões tomadas no momento mais crucial da vida, mais cedo ou mais tarde, acabam trazendo.







The Woman in Black/ A Mulher de Preto
direção: James Watkins
elenco: Daniel Radcliffe, Ciaran Hinds, Janet McTeer, Sophie Stuckey
IMDb



Baseado no romance de Susan Hill e já adaptado para musical por Andrew Lloyd Webber, A Mulher de Preto é um projeto da tradicional produtora inglesa de filmes de terror Hammer, responsável por clássicos com Bela Lugosi, Peter Cushing e Christopher Lee. E é justamente essa atmosfera de terror vintage que o filme de James Watkins tenta reconstruir... em vão. O filme abusa daqueles velhos clichês de filmes de fantasma: cadeira de balanço que se mexe sozinha, caixa-de-música que toca do nada, sombras à espreita de janelas, etc. A história praticamente se arrasta até um clima realmente de suspense aparecer nos 30 minutos finais, que culminam num desfecho de gosto duvidoso. O protagonista, Arthur Kipps, é interpretado por Daniel Radcliffe em seu primeiro personagem pós-Harry Potter. Achei Radcliffe uma escolha um tanto imatura pro papel de um pai recém-viúvo que é enviado para uma mansão abandonada a fim de regularizar os documentos da propriedade. É óbvio que em em cinema de horror, mansão abandonada é sinal de mal-assombrada. Mas, há de se reconhecer que há um certo rigor técnico no visual de A Mulher de Preto: desde a eficiente direção de arte ao interessante jogo de iluminação nas cenas de Arthur dentro da mansão. Pena que só isso não seja o bastante pra envolver o espectador. Há a (sempre boa) presença de Janet McTeer, recém-indicada ao Oscar por Albert Nobbs, como uma paranormal tratada como louca pelo marido. De qualquer forma, em tempos de 3D, acho saudável a intenção nostálgica da Hammer em produzir filmes sem parafernália tecnológica, tentando assustar só através do clima do suspense. O exito da bilheteria de A Mulher de Preto nos EUA deve influenciar o estúdio a ser mais criterioso com os próximos projetos.

domingo, 4 de março de 2012

Maratona do Odeon: W./E.; Shame; O Pacto

Comemorei o meu aniversário, sexta-feira, na tradicional Maratona do Odeon (obrigado a todos os envolvidos). Teve a pré-estréia de três filmes: W.E. - O Romance do Século, Shame e O Pacto.
 
W./E./ O Romance do Século
direção: Madonna
elenco: Abbie Cornish, Andrea Riseborough, James D'Arcy, Oscar Isaac
 IMDb 

 
 Eu vou deixar de lado a incrível entertainer musical que Madonna é, assim como vou esquecer suas atuações catastróficas em filmes ao longo da carreira. Vamos focar a Madonna diretora, que estreou com Filfh and Wisdom (2008), o qual não assisti ainda, mas ouvi dizer que um apelo Godardiano. No longa inglês W./E., além de dirigir, Madonna produziu e escreveu o roteiro. A premissa, até promissora, é sobre a relação entre Wallis Simpson (Andrea Riseborough) e Wally Winthrop (Abbie Cornish), duas mulheres separadas por mais de seis décadas. A primeira, viveu um polèmico romance com o rei inglês Edward VIII (James D'Arcy). A segunda, vive um casamento instável e, como válvula de escape, se torna obcecada pela história de Wallis. A história indiretamente dialoga com o oscarizado O Discurso do Rei, onde Colin Firth vive o irmão de Edward VIII, que assume o trono quando este desiste por causa de Wallis Simpson. Inteligente o timing de Madonna em filmar essa história um ano após O Discurso do Rei. Aliás, a direção dela, em si, não é ruim, mas também não salva o filme de uma série de desastres: a parte moderna da história simplesmente não cativa; James D'Arcy interpreta Edward VIII com uma canastrice constrangedora; a câmera utiliza de travellings até interessantes, mas exaustivamente repetidos ao longo do filme, o que cansa visualmente qualquer espectador; a trilha-sonora não se encaixa; por fim, há um problema sério na composição de Wallis Simpson. A personagem não encanta e ainda desenvolve um ar oportunista. Será que Madonna, no fundo, acredita na teoria de que o rei Edward era gay e Wallis era hermafrodita? Pesquisei a respeito e era justamente o oposto disso que a diretora queria afirmar. A única coisa que se salva em W./E. são os ótimos figurinos (inclusive indicado ao Oscar). Talvez o acúmulo de funções tenha desviado a atenção de Madonna no papel como diretora. Acho que ela deveria investir mais em curtas ou médias metragens pra evoluir esse lado que pode vir a dar resultados mais satisfatórios em breve. A história entre Edward e Wallis tem um grande apelo, mas... de boa intenção, o cinema tá cheio.


  
Shame
direção: Steve McQueen
elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale, Nicole Beharie

 
Shame é o tipo daqueles filmes, que, de tão bem comentados, você coloca suas expectativas no grau mais alto possível. Isso, de cara, já te dá uma empatia com a obra, mas ao mesmo tempo, tanta esperança pode te levar a um desapontamento. Ainda bem que Shame se limita à primeira sensação. Apesar das cenas chocantes e do conteúdo pesado, nada impressiona mais do que a atuação de Michael Fassbender (Um Método Perigoso; Jane Eyre). Sua tour-de-force vivendo Brandon Sullivan é a prova de que o Oscar nunca esteve tão sem noção ao ignorá-lo na categoria de Melhor Ator. Não muito atrás vem Carey Mulligan (Drive; Never Let Me Go), como a irmã de Brandon, Sissy. Não simpatizava muito com Carey, mas só a cena dela cantando New York, New York, é de deixar de queixo caído. Sua não-indicação também entra pro rol de falhas gravíssimas da Academia. É fato que, com o passar dos tempos, é cada vez mais difícil pro cinema chocar espectadores sem abusar de cenas explícitas. Mas é curioso observar a delicadeza que o diretor Steve McQueen (não confundir com o ator homônimo, morto em 1980) utiliza para guiar essas cenas em Shame, dando um aspecto quase que de um videoclipe muito bem filmado. Todo um jogo de câmeras coordenado, uma iluminação muito bem utilizada, intercalações inteligentes entre uma boa trilha-sonora e um silêncio necessário. E as demais seqüências do filme, bem longas e detalhistas, colocam o espectador como verdadeiros voyeurs da situação. Shame é mais um longa que não explica porquês e não segue a narrativa começo-meio-fim. Esse é o seu único porém: não se aprofundar na questão psicológica de Brandon, um homem viciado em sexo que mantém uma relação de amor e ódio com a irmã. Cabe ao espectador inúmeras suposições, algumas pistas são dadas pelo roteiro, mas nada é revelado de fato. Não chega a ser um defeito, mas vários filmes em 2011 seguiram por essa linha, acho que tal técnica já demonstra sinal de cansaço. De qualquer forma, a direção de McQueen e as performances de Fassbender e Mulligan estão completamente imunes de qualquer crítica. Mais uma observação: o que George Clooney disse sobre Michael Fassbender poder jogar golfe sem usar as mãos, é tudo verdade.



Seeking Justice/ O Pacto
direção: Roger Donaldson
elenco: Nicolas Cage, Guy Pearce, January Jones, Jennifer Carpenter
  

Quero deixar bem claro que, só por um milagre, eu vou assistir a um filme com Nicolas Cage de novo. Algo do tipo: Stanley Kubrick ressuscitou e exigiu que Nicolas estrelasse seu próximo filme. Eu devia ter aprendido com o desastre Reféns, em que ele fazia um casal com Nicole Kidman. Mas não, dei uma chance a O Pacto, graças a direção de Roger Donaldson, que fez uns filmes B que eu particularmente curto (O Inferno de Dante; A Experiência; Efeito Dominó). Nicolas está mais canastrão do que nunca e parece até contagiar o elenco, já que até Guy Pearce (Amnésia) e January Jones (da série Mad Men) aparentam não estar nos seus melhores dias. A premissa do roteiro é boa: um professor (Nicolas) leva uma vidinha pacata, até o dia em que sua mulher (Jones) é violentada. Um homem misterioso (Pearce), oferece ajuda para encontrar o bandido responsável pelo crime e se vingar dele. Em troca, pede para que pague com um favor quando for necessário. É claro que esse favor envolve algo do nível de assassinato, perseguições, etc., e quando o professor (extremamente correto, por sinal), percebe, está envolvido numa organização do submundo do crime. Pena que o roteiro opte pelo caminho de personagens extremamente estereotipados, reviravoltas o mais inverossímeis possível e [ALERTA SPOILER] a premissa de uma continuação [/ALERTA SPOILER], algo que nove entre dez filmes do gênero fazem atualmente. Em tempos onde filmes como Drive revitalizam o cinema de ação, é triste ver coisas do naipe de O Pacto ainda serem filmadas. Em suma: uma completa perda de tempo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O melhor ator de 2011: Ryan Gosling

Ryan Gosling e Jessica Chastain foram meus atores preferidos em 2011 e merecem bastante atenção em 2012, já que estarão trabalhando a todo vapor. Vou começar falando de Ryan, amanhã falo sobre Jessica.


Ausência sentida no Oscar 2012, Ryan Gosling chega aos circuitos brasileiro a bordo do aclamado Drive, filme que estréia com seis meses de atraso (e que todo mundo já viu através de torrent, mas que vale cada centavinho do ingresso). A justificativa para sua não-indicação é, no mínimo, irônica: os jurados se dividiram entre as três atuações de Gosling durante 2011 e, por isso, nenhuma delas recebeu votos o bastante pra chegar aos cinco finalistas. Vou resumir a carreira de Ryan Gosling através de sua filmografia e tentar mostrar, através disso, por que ele é tido por vários críticos como o melhor ator de sua geração:




Como o introspectivo piloto "sem-nome" de Drive, Ryan Gosling teve a performance mais elogiada de sua carreira até então. Foi o próprio Ryan que escolheu o diretor Nicolas Winding Refn, uma opção que lhe foi facultada durante a assinatura do contrato com os produtores. A aura cult do motorista que dirige de madrugada pelas ruas de Los Angeles, usando um traje quase de super-herói (jaqueta de cetim branco com um escorpião dourado estampado nas costas) tem grandes chances de realizar o maior sonho de Ryan Gosling: "Inspirar alguém a se fantasiar no Halloween de um personagem que interpretei nas telas".



Ainda em 2011, Ryan Gosling esteve em mais dois longas: Crazy. Stupid. Love. (Amor A Toda Prova) e The Ides of March (Tudo Pelo Poder). O primeiro é uma comédia romântica onde ele vive o galanteador bon-vivant Jacob Palmer, que ajuda o recém-divorciado Steve Carell a dar a volta por cima. Para a composição do personagem, Ryan desenvolveu um físico invejável - mas, em entrevistas, afirmou que não sabia o que fazer com músculos após o termino das filmagens. Sua porção galã que foge do caricatural foi comparada a George Clooney pela crítica americana. É, por enquanto, o filme de maior bilheteria de Ryan Gosling.




Mas a relação com Clooney iria além da comparação: Ryan contracena e é dirigido por ele em The Ides of March. O papel de Stephen Myers, o dedicado assessor de imprensa do candidato à presidência dos EUA Mike Morris (George Clooney), teve nomes como Leonardo DiCaprio e Chris Pine cogitados antes de parar na mão de Ryan Gosling. Tanto por este filme quanto por Crazy. Stupid. Love., Gosling foi indicado ao Globo de Ouro.



 Em 2010, graças a Blue Valentine (Namorados para Sempre), Ryan estabeleceu seu prestígio com a crítica. A elogiada química com Michelle Williams foi obtida através de uma técnica inusitada do diretor Derek Ciafrance. Michelle e Ryan se conheceram de verdade em frente às câmeras e todo os diálogos foram improvisados. Além disso, Derek colocou Michelle e Ryan morando juntos por um mês, junto com a criança que interpreta a filha do casal na ficção. O objetivo era fazer com que os dois "destruissem" a própria relação. Cada momento de deterioração era filmado, buscando a maior veracidade possível. O resultado? uma indicação ao Globo de Ouro tanto para Ryan quanto para Michelle.



Se em All Good Things (Entre Segredos e Mentiras), Ryan Gosling era um psicopata que infernizava a vida de sua mulher, vivida por Kirsten Dunst, em Fracture (Um Plano de Mestre), ele era o promotor incansável que perseguia um milionário (Anthony Hopkins) que assassinou a esposa através de um plano estratégico que garantia até a sua própria absolvição nos tribunais. Embora ambos não tenham se saído muito bem nas bilheterias, tal dualidade serviu para comprovar a capacidade de Ryan em interpretar personagens os mais díspares possíveis. Os dois foram realizados em 2010.



Aliás, um dos personagens que mais se sobressaem na filmografia de Ryan Gosling é Lars Lindstrom, de Lars and the Real Girl (A Garota Ideal). Lars é um jovem introvertido que se apaixona por uma boneca inflável e faz com que toda a vizinhança se renda à sua "namorada". Para auxiliar a interpretação de Ryan, a boneca foi tratada como uma atriz de verdade: ganhou o nome de Bianca Wrangler (e até apareceu nos créditos), tinha seu próprio trailer e só estava presente no estúdio nas cenas em que participava. Este filme rendeu a Ryan Gosling sua primeira indicação ao Globo de Ouro.



Na cerimônia do Oscar de 2007, Ryan Gosling era um ilustre desconhecido: foi indicado por sua performance avassaladora no filme independente Half Nelson. Como o professor de um colégio de periferia, que nas horas vagas abusa do uso de drogas e álcool, ele ganhou o status de "promissor" e passou a ficar sob os atentos olhares dos críticos. Foi a primeira e única indicação de Ryan ao Oscar até hoje.



The Notebook (Diário de Uma Paixão), adaptação do best-seller de Nicolas Sparks, foi o primeiro sucesso de bilheteria de Ryan Gosling. Ele protagozinou o filme ao lado de Rachel McAdams, com quem teve um relacionamento na real life que durou mais de três anos. Embora o estúdio tivesse cotado Justin Timberlake e Tom Cruise para o papel de Noah, Ryan Gosling foi a primeira e única escolha do diretor Nick Cassavetes. Ryan e Rachel ganharam o troféu de Melhor Beijo no MTV Movie Awards.



O primeiro papel de relativa importância de Ryan Gosling foi no suspense Murder by Numbers (Cálculo Mortal), de 2002, protagonizado por Sandra Bullock, com quem ele também teve um romance nos bastidores. Além de Sandra, Ryan contracenou com Michael Pitt, que se tornaria famoso ao protagonizar The Dreamers (Os Sonhadores), de Bernardo Bertolucci.




Para 2012, Ryan já está envolvido com vários projetos: uma nova parceria com Nicolas Winding Refn, chamado Only God Forgives; contracenará com Rooney Mara e Christian Bale no novo filme de Terrence Malick, Lawless; fará o papel do sargento Jerry Wootters no drama criminal Gangster Squad, com Emma Stone e Sean Penn; e reencontrou com o diretor de Blue Valentine, Derek Cianfrance, no longa em fase de pós-produção The Place Beyond the Pines, classificado pelo próprio Ryan Gosling como "a melhor experiência que ele já teve filmando um longa".